9/10/2009

A vida habitual

Revolutionary Road, o romance mais conhecido de Richard Yates, renasceu com a reedição em paperback com prefácio de Richard Ford (2001) e com a adaptação ao cinema dirigida por Sam Mendes (2008). O filme é certinho mas sem rasgo (DiCaprio é um caso gritante de miscasting, e Michael Shannon, que fez o esquizofrénico John Givings, rouba as cenas todas). Dá aquilo que o cinema dá bem: as casas e os carros da América de Eisenhower, a vida funcionária de homens de chapéu em estações, mais umas discussões conjugais à Albee. Mas perde-se densidade, angústia, perde-se a ideia de Yates de que a revolução de 1776 descarrilou algures por 1950.

Revolutionary Road é uma obra fundamental do realismo crítico e acessível, já não uma literatura empenhada à Dreiser e ainda não uma sofisticação da escola New Yorker. E no entanto Yates tem as mesmas obsessões de Cheever, bem como de escritores um pouco mais novos, como Dubus ou Updike. Já lá está toda a panóplia da decepção burguesa, da decomposição conjugal, da mudança de costumes, mas tudo ainda se faz por remissão a um «sonho americano» que terá caído em colapso. Revolutionary Road não inventou «o subúrbio», mas fez dele uma categoria filosófica indispensável para compreender determinado tempo, um pouco como a «juventude inquieta» dos filmes de Ray.O subúrbio, nem rural nem citadino, era uma zona de estudo da moralidade convencional e das suas pequeníssimas transgressões. A convenção e a transgressão fazem aliás parte de um mesmo quadro mental, porque uma supõe a outra como travão ou superação imaginária.

Richard Ford escreveu que o Revolutionary Road tem uma dimensão satírica, mas com as décadas a sátira foi-se perdendo e só fica a visão francamente desencantada da «vida habitual» que é de todo o modo o esteio do romance. Querendo responder aos críticos que criticam a «crueldade» e o «moralismo» de Yates, Ford supõe a existência possível de um mundo diferente. Um mundo em que aquilo que fazemos corresponda àquilo que dizemos. Um mundo que saia do subúrbio como categoria mental.

É um optimismo que acho que o romance não permite de modo algum. Em Revolutionary Road, a única pessoa que faz o que diz e diz o que faz é um homem sem super-ego: um louco. À loucura da normalidade não temos a opor senão a própria loucura.