10/25/2009

Perseguido pela esperança

- Você tem «descortinado» muito ultimamente, meu filho?
- Tenho, pai, disse contrafeito com a intrusão de intimidade, toda vez que o pai quisera «compreendê-lo», deixara-o constrangido.
- Como vão suas relações sexuais, meu filho?
- Muito bem, respondeu com vontade de mandar o pai para o inferno de onde o tirara.
- Você sabe que o amor é cego, que quem ama o feio bonito lhe parece, e que seria do amarelo se não fosse o mau gosto? e que em casa de ferreiro espeto de pau, e quem não tem cão caça com gato, e boca não erra? disse o pai descarrilhando um pouco mais, não faltava muito para começar a contar o que fazia com mulheres antes naturalmente de ser casado com tua mãe. Você sabe que esperança é duro combate que aos fracos abate, e aos fortes etc.?
- Sei sim, meu pai.
- Meu filho. Você está consciente de que de agora em diante, para onde você vá, será perseguido pela esperança?
- Estou sim, meu pai.
- Você está disposto a aceitar o duro peso da alegria?
- Estou sim, meu pai.
- Mas, meu filho! você sabe que é quase impossível?
- Sei sim, meu pai,
- Você ao menos sabe que esperança é o grande absurdo, meu filho?
- Sei sim, meu pai.
- Você sabe que há que ser adulto para ter esperança!!!
- Sei, sei, sei!
- Então vai, meu filho, ordeno-te que sofras a esperança.




















[Clarice Lispector, A Maçã no Escuro, 1961]