2/08/2011

Outros tempos


















Ela chamava-lhe reaça. Ele chamava-lhe comuna. Ela provocava. Ele era bruto. Ela tinha esperança. Ele previa o apocalipse. Ela era humanista. Ele misantropo. Ela era infeliz aos amores. Ele a princípio também. Ela era jovem. Ele tinha mais vinte anos. Ela foi para fora. Ele ficou em Inglaterra. E durante duas décadas escreveram-se: coscuvilhices, paródias, queixumes, maldades, curiosidades, conselhos às vezes, tudo com graça e inteligência. Um jogo nunca interrompido, sem intimidade, em branda sedução, elegante, infantil, aristocrática, teimosa. Raramente se encontraram, nunca dormiram juntos, «não houve nada» entre eles, mas deixaram a correspondência mais civilizada e divertida que conheço entre um homem e uma mulher, tão iguais, tão desiguais, tão companheiros. Outros tempos.