4/08/2011

Cioran 1911-1995















(...) Cioran escreve contra si mesmo, escreve para insultar a vida e para se insultar a si próprio, foi sempre isso que me interessou nele, nunca gostei de críticos auto-complacentes. Ele enfrenta o desespero, e, ao contrário do que parece, nunca desespera por completo. Por exemplo, foi com Cioran que aprendi que um pessimista não se suicida, que o suicídio é uma facilidade, uma recusa da vida não como experiência mas como incógnita. Tal como o seu amigo Beckett, Emil Cioran viveu estoicamente o seu desgosto pela espécie e pela existência. E até encontrou no budismo uma espécie de religião defeituosa e portanto útil. Era um homem intensamente privado, e apesar de obcecado com o tema da solidão total, tinha um grupo de fiéis e viveu cinco décadas com uma mulher, de quem creio nunca ter visto sequer um retrato. 

Cioran foi um «aristocrata dos vencidos», não conheço definição tão certeira como essa, e viveu algumas divertidas contradições: autor da moda mas mediaticamente invisível, niilista citado nos salões burgueses, discípulo de Job sem grandes tragédias objectivas. Sempre admirei nele a propensão para os «exercícios negativos», que eram não apenas a constatação de fracassos, precariedades ou embustes, mas uma exploração radical dessa constatação pessimista. Isto, creio eu, tem também a virtude de afastar os timoratos e de atrair os complicados.

Descobri Cioran na biblioteca do meu pai, que nunca contrariou o meu entusiasmo por aquele autor, que era porém uma possível influência «perigosa» na minha educação nada niilista. Ao longo dos anos, fui comprando e lendo o Cioran quase todo, geralmente livros fininhos que eu enchia de marcadores e sinalefas a lápis. É possível, creio que é até desejável, que estes textos sejam mais «literatura» do que «filosofia», a verdade é que nenhum argumento filosófico, por mais bem argumentado, me perturba, enquanto que uma frase bem calibrada do romeno é fatal, nem vos conto. A biografia do Cioran parisiense é sucinta e em geral amena, mas nunca entendi as acusações de «pose», acho que chamam «pose» àquilo que nos outros, a ser sincero, incomoda. E se muitos admiram as subtilezas elegantes de Cioran, é bastante mais difícil aceitar o seu pensamento inquieto. (...)


[no Expresso de amanhã]