10/03/2011

Beyond a reasonable doubt

(...) A presumível homicida faz a lista dos seus amantes, confessa saudades várias, conta conversas com o capelão, jura que era amiga da assassinada, descreve a rotina prisional, pede desculpas, garante que está inocente, confi a na absolvição, queixa-se dos media que construíram uma «imagem negativa» dela e que se armam em «juízes implacáveis e hipócritas» (até a sisuda Bompiani já publicou um livro chamado «Amanda e gli altri»). E no entanto ela vive altivamente dessa sua imagem: «As pessoas comportam-se como se eu fosse a mulher mais bonita desde Helena de Tróia». Não é uma Helena de Tróia, mas as fotos do julgamento são fantásticas. Enquanto os seus defensores divulgam fotografias de uma all-american girl liceal e pacata, as imagens de tribunal transmitem confiança e exibem sedução. Amanda disse que o seu à-vontade a tem prejudicado. Na verdade, o seu à-vontade cativa. As fotografias são um prodígio de casual-chique. Escoltada por polícias feias e esgalgadas, Amanda vai atenta nos seus olhos azuis metálicos, veste um pullover azul celeste, uma camisa branca com florzinhas que mostra os braços nus, uma camisola com várias cores horizontais, tem o cabelo solto na sala de audiências, ostenta uma placidez renascentista, contrai os lábios carnudos numa cara divertida, usa um casaquinho grená que lhe acentua os seios, espreita por cima do ombro, sorri para o juiz num friso de polícias encantados. Supostamente, um julgamento é a única circunstância em que ser atraente é prejudicial. Mas digam isso aos fãs, aos juízes e agentes sorridentes, aos duzentos jornalistas e aos fotógrafos, aos cronistas e colunistas. Se ela fosse feia receberia toda esta atenção? Acho que não. Entre acusações e dúvidas, a beleza de Amanda é o único facto provado.

[Público, 7 de Março de 2009]