Hitch é grande
Admirava o Hitchens prolífico, erudito, articulado, veemente, corajoso, divertido. E o seu estilo vigoroso e quezilento. Apreciava o orwellianismo desafiante, o combate contra o totalitarismo, tanto na fase de socialista inglês dissidente como no período americano. Hitchens foi uma das primeiras figuras da esquerda intelectual a tirar conclusões das fatwas, dos homicídios, dos atentados. Percebeu quem era o principal inimigo da liberdade, e isso valeu-lhe o ódio de quem o idolatrava e a idolatria de quem o odiava. Confesso porém que a sua retórica de convertido me deixava em geral frio. Em compensação, apreciava o seu ateísmo, dos profetas ateus era talvez o único que sabia fazer da missionação laica um bom entretenimento. Em Hitchens, achava graça à clique de amigos famosos, à caterva de ex-amigos igualmente célebres, à vontade de atacar figuras
benquistas. E ao trotskismo champanhês, ao sotaque de menino bem reconvertido, ao visível hedonismo etílico e desmazelado. Cansava-me o Hitchens fanfarrão, arrivista, inconstante, polemista compulsivo, ávido de publicidade. Tenho pena que toda a gente conheça as opiniões políticas dele mas poucos leiam os ensaios magistrais que escreveu sobre Waugh, Green ou Larkin, os meus ingleses, mas sei que a política come tudo em volta. Hitchens nunca foi um dos meus heróis, mas tornou-se um velho conhecido, um dos colunistas que eu lia com mais frequência, naquelas publicações todas onde escrevia, e eu lia sempre com vontade de gostar, sempre certo de que ia ficar impressionado, animado, incomodado, convencido. Hitch era grande.

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