10/31/2011

Lord Hailsham

Quando rebentou o caso Profumo, em 1963, o anafado Speaker da Câmara dos Lordes, Lord Hailsham, atacou violentamente o ministro por causa da sua promiscuidade. Um colega de bancada ripostou: «Quando um homem se desleixou ao ponto de ter o tamanho de Lord Hailsham, a continência sexual apenas exige sentido do ridículo».

Fake Tudor













Quem gosta de se enganar a si próprio, como bónus de enganar os outros, faz reconstituições do passado agradavelmente fraudulentas. Em Inglaterra, até inventaram uma designação para isso: «fake Tudor». Como quando puseram o esbelto Jonathan Rhys Meyers a interpretar na TV o corpulento Henrique VIII. Bem, compreendo o vosso esforço. Antes isso, de facto, do que um corpulento a fazer de esbelto.

10/30/2011

Temperaturas

Estou fisicamente e emocionalmente indefeso face a mudanças bruscas de temperatura, no clima como nas pessoas. Convivo com o quente e o frio com estratégias eficazes, mas quando acontece uma passagem brusca de uma temperatura para outra, não resisto, entro em descompensação, em colapso, o meu corpo e o meu espírito tornam-se uma anedota que eu apenas posso observar, impotente, como se visse alguém a ter um ataque epiléptico no chão.

A meio duma frase

Passa de novo logo às 18.30 o Prémio Revelação do Doclisboa 2011: Ami, Entends-tu, de Nathalie Nambot. Ami, Entends-tu é um filme sobre a poesia. Não é apenas «poético»: respira com o mesmo fôlego da poesia. Ossip Mandelstam (1891-1938) era um acmeísta russo, um daqueles sumptuosos «modernistas neoclássicos» entrincheirados entre os velhos simbolistas e os jovens futuristas. A sua poesia densa e imagista tem quase tudo aquilo que desagradava aos soviéticos, do cosmopolitismo cultural ao fascínio pela religião, passando pela experimentação formal, o vocabulário arcaizante, o subjectivismo, o hermetismo pungente. Não admira que fosse perseguido pelo regime. Morreu a caminho de um campo de concentração em 38, depois de ter sido removido «a meio de uma frase» da companhia da mulher, Nadejda. As memórias de Nadejda Mandelstam são um dos grandes testemunhos sobre o horror das ideologias e o triunfo inabalável da imaginação poética e da paixão amorosa. Em Ami, Entends-tu, Nadejda fala para a câmara, no seu apartamento escuro e encafuado. Conta como ela e Ossip tinham um amor único, inabalável, apesar de sabermos que Mandelstam tergiversou. Conta que tão terrível como a opressão é a indiferença que a opressão gera. Conta que muitos dos poemas de Mandelstam dos últimos anos, depois de um fatal poema sobre Estaline, não eram mais escritos, mas decorados, passavam de boca em boca e de coração em coração como no Fahrenheit 451. Uma outra mulher bela e triste lê os esplendorosos poemas de Mandelstam, e parece que o russo é uma língua feita de propósito para a poesia, de tal modo os poemas são tocantes mesmo sem lermos as legendas. Enquanto isso, as imagens que aparecem são mínimas, um mar gelado, uma luz que se acende e apaga, talvez um farol, o caos urbano, o tempo lento e cíclico, a voz da alma gémea Akhmátova, o Inverno desolado do exílio de Mandelstam, que acabou um quase cadáver de tanto frio e tanta fome. E há uma rima política terrível, com o ataque ao teatro Dubrovka e o homicídio de Anna Politkovskaya. Uma lembrança de que ao lado do triunfo perene e surdo da poesia, continua a mesma mentira, a mesma mentira da opressão e da indiferença, a mesma vontade de fazer desaparecer alguém «a meio duma frase».

Notas subterrâneas


















Depois de algumas catástrofes privadas, decidi privar-me de catástrofes. Por implacável ironia, conheci então as únicas catástrofes da minha «vida pública». E entretanto até o espaço impreciso entre público e privado se tornou irrespirável. Um homem fica sem um lugar onde encostar a cabeça. Daí que o blogue se transforme em notas do subterrâneo, em homenagem àquele russo viciado, místico, perseguido, epiléptico, desesperado e imortal.

O biógrafo

Leio um biógrafo dizer sobre um autor que tentou biografar: o que sabemos sobre ele é pouco e o que não sabemos é de certeza pouco interessante.

10/29/2011

Badinou (3)

«Essa menina matou o poeta». É uma frase generosa, porque me confere a discutível condição de «poeta». É amável, pois lamenta a minha actual incapacidade para escrever poesia. E é perspicaz, porque atribui essa incapacidade a uma experiência prosaica com uma «menina». De facto, com a poesia não se badina, e ela badinou.

Badinou (2)

Há quem a acuse de faltas terríveis mas falsas. A falta dela foi menos grave que isso, embora tenha sido a mais grave de todas. Não se brinca com o amor, eis um mandamento que vale bem os dez, e ela, que é orgulhosa, brincou, badinou, foi isso e mais nada, nada do que vocês dizem para me agradar mas é falso, a verdade é que ela badinou, e não se badina com o amor.

Badinou (1)

Camille é uma orgulhosa. A beatice é nela apenas um constrangimento, a inconstância apenas uma consequência, os ciúmes apenas um pretexto. É orgulhosa e por isso monstruosa. Ignorante e ligeira, destrói a vida dos outros, mais por violência do que por devaneio. Quando ela diz que nem tudo mente numa mulher quando a sua linguagem mente, seria uma confissão admirável se ela não estivesse outra vez a brincar com as palavras. Escudada na defesa de um amor eterno, feliz e sem sofrimento, ou seja, de um amor imaginário, parece caminhar em direcção a um amor anunciado, combinado, prosaico e passageiro. Até que acontece a tragédia que castiga quem brinca com o amor, e o final mais abrupto da história do teatro.

[Não se Brinca com o Amor, de Alfred de Musset, está em cena no Teatro da Politécnica, numa encenação de Jorge Silva Melo]

O receio inspira-me e o medo diverte-me

10/28/2011

Um círio negro

Tudo isso está com clamorosa concisão num grande poema russo: «Eu arderia como um círio negro por ti, / como um círio negro, e ser-me-ia proibido pedir».

Anatahan


















Muitas vezes sinto-me em Anatahan, a combater uma guerra que há muito acabou.

10/25/2011

E ver tudo a cair

O concerto de Bonnie ‘Prince’ Billy, o segundo que vi dele, baseou-se excessivamente no repertório mais country, digamos, em geral as canções de que menos gosto e das quais menos me lembro. Devem ter sido tocados vários temas de Wolfroy Goes to Town (2011), que ainda não ouvi, mas de que fixei uma canção fantástica, «New Whaling». No palco, Bonnie ‘Prince’ é uma mistura de mimo, pregador e boneco articulado, bigode redneck, uma certa rigidez acompanhada de caretas, braços esticados, pernas a balançar e um tique qualquer com as calças e os bolsos. Pouco comunicativo mas não antipático, foi mais formal do que no outro espectáculo que vi, em que estava com um acompanhamento mínimo, e se mostrou mais festivo e mais negro. As canções têm uma estrutura bizarra, com quase «recitativos» e aparentes devaneios, mas a banda (guitarra, contrabaixo, bateria, piano, backing vocals) portou-se à altura. E tivemos direito à grande canção moderna sobre a amizade, a comovente «I See a Darkness». E a «Another Day Full of Dread», esse apocalipse feliz: «and I say: nip! nap! it’s all a trap /bo! bis! and so was this / whoa! whoa! to haiti go, /and watch it all come down / ding! dong! a silly song / sure do say something’s wrong / smile awhile, forget the bile / and watch it all come down». 

10/24/2011

Gentileza dos cães


I wrote a letter to a wildflower
on a classic nitrogen afternoon.
Some power that hardly looked like power
said I'm perfect in an empty room.
Four dogs in the distance
each stands for a kindness. (...)

Aos cães

Quem não tem habitualmente insónias e sofre de repente insónias prolongadas, sente-se atirado aos cães. E certas insónias são seguidas de um sono exausto, inquieto, infestado de pesadelos. Ontem, acordei violentamente de um desses pesadelos trazidos pelo cansaço, e no sonho aparecia um cão enorme, em cima de mim. Não era o famoso «cão negro», mas também não era um cão de lealdade ou protecção, nem o guardião postado à entrada de outros mundos. Era um animal enigmático, calmo, parado, ominoso, um animal que me lembrava que eu sei bem de onde vêm tantos cansaços, insónias, tormentos.  

Há outra pessoa

Há outra pessoa. Que parte de «há outra pessoa» é que não percebeste? Não há espaço, vida ou paciência para ti. És um incómodo, um zumbido. Desaparece, faz-te à estrada. Não se invade assim a felicidade ou infelicidade de alguém. Há outra pessoa, uma pessoa que não és tu, nunca foste tu, não serás jamais. Vai-te embora, não me incomodes, tenho mais em que pensar. Há outra pessoa, uma pessoa que conta, uma pessoa a sério, tu para mim nem sequer és uma pessoa, vai morrer longe. Escrevo isto para minha defesa, escrevo isto contra mim.

Então que seja

« (...) [S]empre senti uma certa ambiguidade quanto à poesia. Ela vem de um lugar que ninguém controla, que ninguém conquista. Quer dizer, se eu soubesse de onde vêm as canções, escreveria canções com mais frequência. É difícil aceitar um prémio por uma actividade que na verdade não controlo.

(…) [S]ó encontrei a minha voz quando li Lorca (…). E quando me tornei mais velho soube que havia instruções que vinham com essa voz. E quais eram essas instruções? Nunca lamentar nada. Se queremos exprimir a perda que nos atinge a todos, então que seja nos limites estritos da dignidade e da beleza».

[discurso de aceitação do Prémio Príncipe das Astúrias, Oviedo, 21.10.2011]

10/23/2011

Too cool for sex

Philip Roth é bastante elogiado e bastante criticado pela sua obsessão sexual. Na geração dele, o sexo tornou-se compreensivelmente o assunto mais urgente, dado o novo clima de liberdades. Os romances de Bellow, Mailer e Updike são quase invariavelmente libidinosos. Outros tempos. Passada a revolução sexual, chegada a epidemia sexual,  instalados o enfado, a ironia e o cinismo, temos agora romancistas americanos desoladoramente assexuados. Procurando algum comentário a esse estado de coisas, escrevi no Google «too cool for sex» e encontrei um belo artigo de Katie Roiphe no New York Times: uma autópsia sexual de Michael Chabon, Dave Eggers, Jonathan Safran Foer, Jonathan Franzen e David Foster Wallace. Excertos, antes de umas breves notas:

(...) At this point, one might be thinking: enter the young men, stage right. But our new batch of young or youngish male novelists are not dreaming up Portnoys or Rabbits. The current sexual style is more childlike; innocence is more fashionable than virility, the cuddle preferable to sex. (...)

The younger writers are so self-­conscious, so steeped in a certain kind of liberal education, that their characters can’t condone even their own sexual impulses; they are, in short, too cool for sex. Even the mildest display of male aggression is a sign of being overly hopeful, overly earnest or politically un­toward. For a character to feel himself, even fleetingly, a conquering hero is somehow passé. More precisely, for a character to attach too much importance to sex, or aspiration to it, to believe that it might be a force that could change things, and possibly for the better, would be hopelessly retrograde. Passivity, a paralyzed sweetness, a deep ambivalence about sexual appetite, are somehow taken as signs of a complex and admirable inner life. These are writers in love with irony, with the literary possibility of self-consciousness so extreme it almost precludes the minimal abandon necessary for the sexual act itself, and in direct rebellion against the Roth, Updike and Bellow their college girlfriends denounced. (…)

They are good guys, sensitive guys, and if their writing is denuded of a certain carnality, if it lacks a sense of possibility, of expansiveness, of the bewildering, transporting effects of physical love, it is because of a certain cultural shutting down, a deep, almost puritanical disapproval of their literary forebears and the shenanigans they lived through. (…)

It means that we are simply witnessing the flowering of a new narcissism: boys too busy gazing at themselves in the mirror to think much about girls, boys lost in the beautiful vanity of “I was warm and wanted her to be warm,” or the noble purity of being just a tiny bit repelled by the crude advances of the desiring world. (…) 

Compared with the new purity, the self-conscious paralysis, the self-regarding ambivalence, Updike’s notion of sex as an “imaginative quest” has a certain vanished grandeur. (...)

10/21/2011

Agora a sério




















«Agora falando sério / Eu queria não cantar / A cantiga bonita / Que se acredita / Que o mal espanta / Dou um chute no lirismo / Um pega no cachorro / E um tiro no sabiá / Dou um fora no violino/ Faço a mala e corro / Pra não ver banda passar». Assim começa aquela que é talvez a minha canção favorita de Chico Buarque, incluída no álbum «Chico Buarque de Hollanda – nº 4» (1970). [...]

O uso da expressão «agora falando sério» não tenta interromper o curso lúdico de uma conversa, interrompe-o de facto, destrói toda a leveza. Mas ao contrário do que é costume, quem diz isso não quer substituir uma conversa por outra, com outro tom, aqui ele quer mesmo acabar com a conversa, prefere não falar disso, porque falar é um logro, uma distracção de um «sono difícil», de uma vigília sofrida: «Agora falando sério / Preferia não falar / Nada que distraísse / O sono difícil / Como acalanto / Eu quero fazer silêncio / Um silêncio tão doente / Do vizinho reclamar / E chamar polícia e médico / E o síndico do meu tédio / Pedindo pra eu cantar». Que verso extraordinário numa canção: «Eu quero fazer silêncio». Uma espécie de «I would prefer not to» do escrivão Bartleby, aquele que «preferia não o fazer». Chico Buarque preferia não cantar, gostava de instaurar um silêncio «doente», o silêncio adequado a uma época doente. Mas ele é o «golden boy», a antiga «unanimidade nacional», e todos o querem ouvir cantar, até os polícias, de quem dirá um dia que o vigiavam mas que pediam autógrafos. A canção como expressão tornou-se a canção como representação, como circo indigno, e isso ele prefere não fazer, embora tenha que o fazer: «Agora falando sério / Eu queria não cantar / Falando sério», as pessoas pensam que o «agora a sério» é uma brincadeira, mas este texto quebra a ilusão artística, eu não quero cantar, canto porque é tudo o que posso fazer, mas cantar não serve de nada, há momentos em que é mais sustento do que poesia. Mas desse impasse surge esta poesia, feita de uma recusa que se resignou a não poder recusar.

Tantas vezes ouvi esta canção em dias opacos, tempos em que não há nada a dizer, apesar de haver sempre quem queira que digamos alguma coisa: «Agora falando sério / Eu queria não falar /Falando sério». Esperar que os outros admitam isso, aceitem, compreendam. Quero alguma coisa e o que quero é não falar. Agora a sério.

[amanhã no Expresso]

Reino da Dinamarca

O concerto de John Grant, autor de um dos melhores álbuns de 2010, não foi memorável. Ele confessou logo de início alguns problemas de voz, aliás notórios, e isso contribuiu para que o espectáculo fosse curtinho e com pouca densidade. E no entanto, na noite de ontem pudemos perceber ao vivo o efeito de verdade que têm as canções de Grant. E a diferença que isso instala no panorama da canção actual. Grant reconduz todos os temas e todas as referências à sua biografia, assume completamente a dimensão confessional, catártica, daquilo que escreve. E as canções de Queen of Denmark, que têm a elegância e a verve do grande cancioneiro americano, vivem além disso de fúria, fragilidade, dramatismo, queixume, fracasso, nojo, falso sarcasmo, enfim, expõem as vísceras, em disco como em palco, uma coisa muito pré-modernista, muito de outras épocas, e que desperta em tanta gente o entusiasmo de uma compaixão que se tornou quase clandestina.

Akhmátova

António-Pedro Vasconcelos anunciou que a partir de agora se ia dedicar de corpo e alma à defesa do serviço público de televisão. Nada tenho contra o serviço público; mas há dias, num programa televisivo para o qual me convidaram, disse que telenovelas, concursos e futebol não correspondem ao meu conceito de serviço público. Na sua coluna no semanário Sol, APV afirma hoje que eu me referi a uma televisão que «não existe», pois, garante, é falso que a RTP1 transmita novelas, concursos e bola. Fui conferir a programação da última semana. E reconheço aqui publicamente o meu erro: «Ribeirão do Tempo» e «Poder Paralelo» são afinal óperas; o Basileia-Benfica é dramaturgia contemporânea; e «O Preço Certo» e «O Elo Mais Fraco» são, como os nomes indicam, documentários sobre Akhmátova.

Comunidade


















Uma das mais inquietantes teorias da comunidade é a formulada por Konrad Lorenz: só vivemos bem juntos se odiarmos as mesmas coisas. Infelizmente, a História dá-lhe razão.

10/20/2011

Um líquido sujo

Robespierre, Mussolini, Quisling, Trujillo, Verwoerd, Ceausescu, Saddam, Khadafi, finais horríveis para vidas horríveis. A justiça histórica não é um bálsamo benigno mas um líquido sujo.

Percutivo mas não ruidoso

Um poeta hermético que defende a «autenticidade»? Um estruturalista lírico? Um cosmopolita dialectal? Andrea Zanzotto (1921-2011) era tudo isso. Podia parecer um poeta mansamente autobiográfico e contido, na linha de uma tradição meditativa, ou então um profeta da vanguarda, mas afastou-se da linguagem tradicional sem nunca aderir à vanguarda dos Novíssimos (Pagliarani, Sanguinetti, Porta). Do volume Poesie 1938-1986 só consigo ter alguma afinidade com os poemas das primeiras décadas, sobretudo das colectâneas Dietro il paesaggio (1951) e Vocativo (1957). Zanzotto recusava a poesia política dizendo que era preciso combater o «terror quotidiano» (que ele conhecia bem, sobretudo por causa de desesperantes insónias). E reivindicava um forte sentimento de pertença territorial (o Veneto). A certa altura, porém, este eremita decidiu alargar o seu campo semântico, que era também um campo de resistência, tornando os poemas interdisciplanares, babélicos, herméticos, não fugindo sequer a níveis verbais infra-literários, como o balbucio infantil ou a afasia. Montale chamou-lhe um poeta «percutivo mas não ruidoso», mas essa segunda fase de Zanzotto é demasiado confusa para o meu ouvido (e para o meu conhecimento escasso da língua italiana), embora seja um bom exemplo de seriedade com que a poesia italiana tem investigado a linguagem poética.

Fading fast

É uma das canções que faz parte da minha intimidade: o fracasso como confissão, a memória que se desfaz, a identidade feita lixo e a mudança como ilusão. Mas tecnicamente é apenas uma torch song com um amen break.

O meu combate

Durante a adolescência, lutei contra um condicionamento emotivo ou educativo que a palavra «timidez» mal começa a sugerir. Perdi o combate. Desde os 34, o inimigo é isto a que talvez chamem indiferença. Perdi o combate. E no meio houve outro combate, de cujo nome não quero lembrar-me, um terrível combate que venci, ou acho que venci, após década e meia. Mas os custos dessa vitória foram tão altos que nunca antes ou depois tive tamanha derrota.

Electromagnético

Encontro num caderno esta anotação, tirada talvez de um artigo de jornal: «os olhos não são janelas da alma mas órgãos que convertem a luz em impulsos electromagnéticos». Quero acreditar que copiei isto com boas intenções, mas duvido.

Opções de classe

Não acredito na chamada «opção de classe». Acredito em «classes» mais do que um marxista encartado, mas creio que qualquer «opção» pode igualmente nascer de uma lógica individual, motivo pelo qual nunca serei marxista de espécie alguma. Nos últimos anos tenho convivido com uma legião de pessoas cujas opções supostamente não batem certo com a classe à qual pertencem: proletários reaccionários e esquerdistas caviar e outros espécimes patuscos. Não acho isso mal, pelo contrário, essa gente é a prova de que há liberdade individual, de que a «opção» é mesmo uma escolha e não um automatismo «de classe». De resto, convivo tranquilamente com todas as opções, individuais ou de classe, desde que me pareçam genuínas. Não tenho é paciência para a culpabilidade fictícia, o mimetismo acéfalo, a estratégia da cobardia. Nas classes ditas «média-alta» e «alta», esse espectáculo é frequente e frequentemente penoso: «Notre classe a toujours eu un fort contingente d’imbéciles (…) / Tante Louise fait partie de toutes sortes de mouvements progréssistes. Cela ne lui coûte pas plus cher que ses anciennes bonnes oeuvres et cela lui procure de tout autres émotions. Elle a toujours un appel pour quelque chose à vous faire signer dans sa réticule. Avant, c’était les petits Chinois (…)» [Jean Anouilh, Pauvre Bitos, 1956].

10/19/2011

Canção do emigrante


















Primeiro foi Cristiano Ronaldo, um corpo atlético normal que se fez deus musculado num ginásio inglês. Agora sucedeu o mesmo a Daniela Ruah, que com a ida para a televisão americana se transformou de bonitinha em bombástica. Parece uma constante da mentalidade portuguesa: lá fora esforçamo-nos mais. Em tempos de austeridade, sempre é um incentivo.

Vergonhas tão altas e tão saradinhas

O Brasil foi uma saída da nossa pequenez, uma terra de aventuras comerciais, imperiais e missionárias, um território-continente em que tudo era possível, um paraíso natural. E obviamente uma utopia carnal: a Carta de Pero Vaz de Caminha diz logo ao que vem: «Ali andavam entre eles [os índios] três ou quatro moças bem novinhas e gentis, com cabelos mui pretos e compridos pelas costas e suas vergonhas tão altas e tão saradinhas e tão limpas das cabeleiras que de as nós muito bem olharmos não tínhamos nenhuma vergonha». Alguns estudiosos têm sugerido que esse fascínio pelas indígenas não é atribuível apenas ao exotismo e à liberdade, mas a uma espécie de paradigma oculto da nossa mitologia erótica: a moura, essa mulher morena e sensual que queríamos possuir quanto mais não fosse por justiça poética.

10/14/2011

Photomaton


















(...) Em 1929, a revista «La Révolution surréaliste» ensaia uma aproximação estética ao photomaton. Em torno de um desenho de uma mulher nua e da frase “Je ne vois pas la [femme] cachée dans la forêt” estão individualmente dezasseis surrealistas engravatados, todos de olhos fechados. Um Aragon compenetrado, um Breton sereno, um Buñuel de pálpebras pesadas, um Éluard visionário, um Magritte adormecido, um Ernst alucinado, um Dali efebo. Segundo os surrealistas, o photomaton era uma fotografia psicanalítica, que nos confrontava com aquilo que somos e não conhecemos, com uma imagem que reconhecemos mas nos surpreende. Era também uma forma de escrita automática, reveladora, imprevisível, excitante. Supostamente, o retrato dos dezasseis mostra o que vêem os surrealistas quando fecham os olhos, embora nós os vejamos apenas a eles de olhos fechados. A sugestão de que viam mulheres nuas não foi seguida à risca.

Nem todos os surrealistas levavam o photomaton tão a sério. Um deles, Raymond Queneau, explorou bastante uma das grandes potencialidades da máquina: a careta, espécie de comédia muda ao alcance de todos. Era um exemplo de dessacralização do acto fotográfico. O photomaton reinventou a fotografia porque a privatizou, dispensando a figura do técnico. O fotografado senta-se sozinho, num tamborete, corre a cortina, compõe-se ou descompõe-se a seu gosto, confere a imagem ao espelho e faz-se luz. É de algum modo uma fotografia sem estética, crua, identitária, mas sempre surpreendente. 

O aspecto clínico do photomaton acabou por ser aproveitado pelas autoridades. O photomaton representava um espaço exíguo, padronizado, captava uma pose estática com uma iluminação frontal, era por isso um instrumento ideal de identificação. Essa fotografia objectiva, escreveu Barthes, fez de nós sujeitos penais. E de novo solenes.«Smiling is not accepted by your passport authorities”, avisavam os photomatons oficiais. 

[amanhã no Expresso]

10/13/2011

O senhor Eliot

Emanuel Litvinoff, que morreu há dias quase centenário, foi um dos grandes cronistas da experiência judaica inglesa, nomeadamente no volume de memórias Journey Through a Small Planet. Mas o seu texto mais conhecido é um manifesto: um poema contra T. S. Eliot. Na década de 1920, Eliot tinha publicado alguns poemas com passagens anti-semitas, em especial o desagradável «Burband with a Baedeker: Bleistein with a Cigar». Mas o judeu Litvinoff admirava bastante a poesia de Eliot, e tentou desculpar essa mancha, atribuindo a culpa às nefastas modas intelectuais do período entre as guerras. O pior é que em 1948 Eliot republicou o poema ofensivo numa antologia da sua obra. Litvinoff ficou chocado. Recuperar aquele texto cheio de epítetos rácicos depois do Holocausto era um acto de insensatez ou de desumanidade. Litvinoff escreveu então um poema em que castigava ferozmente a atitude de Eliot e renunciava à sua condição de discípulo. Esse poema tornar-se-ia famoso. E gerou um incidente logo em 1951. Litvinoff foi convidado para uma sessão no Institute of Contemporary Arts e decidiu ler o poema-panfleto, que ninguém ali conhecia. Quando terminou, a sala rebentou de indignação. Na mesa, Herbert Read e Stephen Spender protestaram veementemente contra aquele ultraje ao recém-nobelizado. Mas no meio da contestação geral, ouviu-se uma voz discordante ao fundo da sala: «It’s a good poem. It’s a very good poem», disse Eliot.

10/12/2011

Eleições francesas














Há apostas acerca de tudo. Percebi agora que também se fazem apostas sobre o nome do filho ou filha de Sarkozy e Bruni, que vai nascer em período pré-eleitoral. Segundo especialistas franceses, especialistas não sei bem em quê, o nome da criança poderá ser lido como um «sinal político». Se o casal escolher Alice, Juliette, Louise, Mathilde, ou Alexandre, Gabriel, Jean, Louis, Pierre, Victor, isso significa que querem «fazer o pleno» do eleitorado conservador. Se optarem por um nome diferente destes, estão (cito) a «abrir à esquerda». Os especialistas, especialistas não sei bem de quê, também decretaram que a criança «vale» 3 ou 4 pontos percentuais nas eleições, e que se forem gémeos, Sarko tem a reeleição garantida. Os especialistas, mas afinal de quê, até discutem se deve ou não haver fotos do petiz. No meio de tanta idiotice «democrática», o único consolo é haver fotos da mãe. Tem o meu voto.

Lisístrata
















Uma das vencedoras do Prémio Nobel da Paz deste ano esteve ligada a um movimento de resistência anti-guerra das mulheres liberianas, que adoptaram técnicas como a «greve do sexo». A greve do sexo é uma ideia que vem da Lisístrata (411 a.C), a peça de Aristófanes sobre uma ateniense que incita as mulheres a privaram os homens de sexo enquanto não terminar a guerra do Peloponeso. O exemplo foi muito citado aquando da guerra do Iraque, embora, que me lembre, não por Laura ou Cherie. A peça tem sido interpretada modernamente como «pacifista», apesar de o «pacifismo» ser um conceito absurdo na civilização grega. Lisístrata ataca uma guerra concreta, interminável e desastrosa, e ataca os homens políticos gregos por não estarem à altura das suas responsabilidades. Mas está longe de dizer que é guerra é injusta por natureza. A ideia do método é mais interessante e mais moderna, e torna mais plausível a ideia de Lisístrata como texto «feminista» ou proto-feminista. A sexualidade, tal como a guerra, não mudou assim tanto nos últimos dois mil anos. E nesses dois milénios as mulheres tiveram apenas duas vitórias retumbantes. Uma é celebrada pela Lisístrata, em 411 a. C.; a outra foi a comercialização da pílula contraceptiva em 1960. Claro que muita coisa foi mudando nas relações conjugais, em matéria de igualdade e de dignidade. Mas grande partes das conquistas da «revolução sexual» foram conquistas que favoreciam os homens, como é costume. Quase todas as revoluções sexuais favorecem os homens, que nunca eram os desfavorecidos antes de revolução nenhuma. A pílula foi diferente, porque separou o sexo da procriação, autonomizando a decisão da mulher em relação à sua vida reprodutiva e revalorizando o prazer sexual enquanto fundamento da sexualidade. Enquanto isso, a sociedade capitalista continuou com duplos padrões, objectificação, exigências competitivas, tudo isso, nada em favor das mulheres. Mas a pílula não teve recuo. Creio que a Lísistrata ainda é uma revolução mais importante. A pílula autonomiza as mulheres, mas não diminui os homens. A recusa sexual é uma revolução completa, porque em todos as sociedades, arcaicas ou sofisticadas, cabe às mulheres o consentimento sexual, e a ausência do consentimento deixa os homens desorientados, sem saberem se se tornam violadores ou castrados. A pílula, que deu às mulheres poder de escolha, é que devia ser Prémio Nobel da Paz. A greve do sexo é mais instintiva, mais feroz, não tem a ver com a paz com a velha e merecida guerra.

Tecnologia

A tecnologia é o ópio da burguesia.

O escândalo das formas

Tenho-me divertido com a «autobiografia não-autorizada» de Julian Assange. Só esse conceito já é um achado. E tem bastante graça a obsessão dele com a sua «privacidade». E imensa graça o Guardian e o New York Times que agora lhe chamam egocêntrico, paranóico, autoritário, intolerante, misógino, intrujão, o mesmo indivíduo que esses jornais há uns meses promoveram a herói mundial. Bem sei, não devemos confundir a mensagem e o mensageiro, e algumas das revelações da Wikileaks eram relevantes, sobretudo as que diziam respeito a violações de direitos humanos. Mas a mentalidade Wikileaks sempre me pareceu nefasta, ainda para mais integrada neste novo dogma de que tudo o que é tecnológico é intrinsecamente bom. Umberto Eco escreveu que o Wikileaks revelou um escândalo aparente e um escândalo das formas. O escândalo aparente diz respeito às comunicações entre embaixadas, que afinal pouco passavam de banalidades, coscuvilhices e evidências. Mas há um escândalo das formas, diz Eco, que é o fim do segredo, a ideia de transparência total, a total falta de fiabilidade da Net como meio de transmissão de segredos, sem os quais uma sociedade humana não existe. Eco não tem grande coisa a dizer sobre Assange, e Assange, no meio disto, é o lado anedótico. Mas o clima de beatice tecnológica está a tornar-se a religião do século.

The yuppies networking

Paranoid android

Comprei um telemóvel andróide, embora não faça ideia o que é um andróide. Pessoas que vivem no mundo contemporâneo garantiram-me que para o que eu queria, chamadas, mensagens e Internet, um andróide chegava. Adquiri o andróide, desembrulhei o andróide, programei o andróide, e o andróide mostrou-me, sem eu pedir nada, um mapa de Lisboa que indicava o local onde estava. E perguntou-me se eu queria enviar a informação sobre o local onde estava a pessoas da minha lista de contactos electrónicos. Desde a faculdade que não me deparava com uma pergunta tão estapafúrdia. Não faço ideia porque é que alguém há-de querer comunicar às pessoas que conhece onde está a cada momento, e gostava de conhecer alguém que tivesse activado esta funcionalidade, apenas para lhe oferecer um exemplar, pelos vistos incompleto, do DSM-IV. Entretanto, passei a chamar ao andróide «o Orwell»: «tenho o Orwell a carregar», «esqueci-me do Orwell em casa», «tens o meu Orwell», «vou andar uns dias sem Orwell».

A questão da tecnologia

O estupor beato e a hagiografia laica que se seguiram à morte do criador da Apple, Steve Jobs, levaram-me a tirar da estante um texto chamado «A Questão da Tecnologia» (ou «a questão a respeito da tecnologia»). Nessa conferência proferida em 1952, Heidegger afirma claramente que não podemos recusar a tecnologia (é impossível) nem demonizá-la (é inútil). No entanto, diz, devemos ter consciência de que a tecnologia é um perigo.

A questão em questão reside na «essência» da tecnologia, a qual, lembra Heidegger, não é em si mesmo tecnológica. Enquanto pensarmos tecnologicamente acerca da tecnologia, estamos a ignorar o problema. A essência da tecnologia corresponde à sua definição clássica enquanto «actividade humana» e de «meio para atingir um fim». Mas o que acontece quando a tecnologia deixa de ser uma actividade humana, quando perdemos o controlo da tecnologia enquanto simples instrumento, quando a tecnologia se torna um fim em si mesmo? Heidegger sugere uma via de superação estético-metafísica, aproximando a tecnologia ideal de uma forma de «arte» cuja função é revelar a nossa «essência».

Não acompanho este raciocínio, que me parece turvo e melindroso; mas tenho que reconhecer que Steve Jobs se tornou um guru fazendo da tecnologia uma «arte»; e que ele, como tantos outros agora, acreditava que a tecnologia revela a nossa «essência». Porém, ao contrário de Heidegger, duvido que ele defendesse a necessidade de uma tecnologia mais humana, apesar de toda a propaganda nos garantir isso. Receio, bem pelo contrário, que a instrumentalização da tecnologia tenha dado lugar à instrumentalização do humano.

Podemos ter uma simpatia instintiva por Jobs e uma desconfiança instintiva face a Heidegger, mas na questão a respeito da tecnologia um deles foi mais avisado e mais lúcido.

10/08/2011

Love in vain























When the train, it left the station with two lights on behind 
When the train, it left the station with two lights on behind 
Well, the blue light was my blues and the red light was my mind 
All my love's in vain 

[Robert Johnson, 1937]

Uma pequena e excêntrica tribo de britânicos expatriados

Fui comprar o Guardian mas esqueci-me que não havia, não há mais, acabou-se o Guardian em papel para os que o compravam fora das Ilhas Britânicas. O New York Observer ironiza: «This affects a whopping total of 40,000 people, whom we picture as a small tribe of eccentric British expatriates in velvet smoking jackets and ascots who probably also have their print editions of The Guardian ironed for them in the morning by manservants. We hope they will be okay». Estamos mais ou menos.

10/06/2011

O teatro do amor

O CASAL, de Tomas Tranströmer

Apagam o candeeiro e o seu globo branco
cintila um momento, como um comprimido que flutua
e se dissolve num copo de escuridão. As paredes do hotel
elevam-se qual cenário para o céu nocturno.

O teatro do amor terminou, agora dormem.
Mas os seus sonhos vão encontrar-se
e misturar-se um no outro
como desenhos infantis em páginas molhadas.

Está tudo escuro e calado.
Mas a cidade aproxima-se, escurecendo as janelas. 
As casas aproximam-se,
uma atenta plateia de rostos apagados.

[versão PM, a partir de uma versão portuguesa de Teresa Salema (1987) e de versões inglesas de Robin Fulton (1997) e Robin Robertson (2006)]

Tranströmer


















Descobri Tomas Tranströmer há uma década por causa dos rasgados elogios feitos pelo seu tradutor americano Robert Bly, um poeta que cultiva a chamada «deep image», estilo a que o sueco também está de algum modo associado. É essa imagem nítida, forte, evocativa, enigmática, que me interessa na poesia de Tranströmer, e menos o seu motivo principal, geralmente a natureza. É uma poesia metafísica embora céptica, uma poesia intimista mas humanista, mundana e evocativa, melancólica e feita de pequenas epifanias. Tranströmer é um poeta lírico, numa época em que a poesia lírica parecia estar um pouco esquecida. É um dos grandes poetas vivos, um Nobel em grande.

10/05/2011

A medalha sueca














E que tal premiar uma obra feita, um percurso forte, um estilo pessoal e um pensamento vigoroso? Há uma vintena de autores a quem estas palavras se aplicam: o meu favorito é Kundera. Mas também já vai sendo altura de voltar a contemplar a poesia: se amanhã a Academia atribuir a medalhinha ao americano Ashbery, ao espanhol Gamoneda, ao estónio Kaplinski, ao francês Bonnefoy, ao polaco Zagajewski ou ao sueco Tranströmer, fica bem entregue.

10/03/2011

Perché il fatto non sussiste

Assim que o tribunal de recurso de Perugia anulou a decisão de primeira instância, muita gente reagiu virando o bico ao prego: Amanda Knox tinha sido absolvida porque era bonita. Mas todos os estudos empíricos indicam que a beleza é sempre uma vantagem excepto em tribunal. A beleza, pelo fascínio que causa e pela promessa vaga que alimenta, modifica o nosso comportamento, e as criaturas atraentes são favorecidas por esse efeito. Mas quando uma pessoa se vê em julgamento, formalmente acusada de alguma coisa, a beleza depõe contra ela, em tribunal o indivíduo belo está a ser castigado, e de algum modo é a própria beleza que está a ser castigada, por isso as testemunhas e os jurados costumam descrever os réus atraentes como gente mentirosa, ínvia, perversa, dúplice, luciferina, manipuladora, fingida. Ou seja, tudo aquilo que os tablóides chamaram a Amanda nos últimos quatro anos.

O tribunal de recurso detectou 54 «erros grosseiros» na produção de prova, alguns dos quais já tinham sido denunciados pela defesa, pela imprensa e por peritos independentes. Bastavam as trapalhadas com o ADN para deitar este caso abaixo. Mas também nunca ficou estabelecido concretamente o motivo do crime, que descambou muitas vezes em suposições fantasiosas e moralistas sobre a «promiscuidade» de Amanda. E nunca ficou provado que Amanda e Raffaele estivessem no local do crime quando o crime foi cometido. As provas eram circunstanciais e duvidosas, o motivo nebuloso e nada garantia que os acusados tivessem sequer estado no local do crime. E mesmo assim, Amanda foi condenada a 26 anos de cadeia e Raffaele a 25. O tribunal de recurso, com um certo embaraço e bastante vergonha, anulou tudo, «perche il fatto non sussiste».

Não sei se Amanda Knox é inocente ou culpada. Sei que em processo se gerou uma «dúvida razoável», e que nesses casos se deve absolver. Dir-me-ão que não sou insensível às questões estéticas; mas quem tem que ser insensível a isso é o tribunal. Quando eu for insensível à estética, levem-me preso.

Beyond a reasonable doubt

(...) A presumível homicida faz a lista dos seus amantes, confessa saudades várias, conta conversas com o capelão, jura que era amiga da assassinada, descreve a rotina prisional, pede desculpas, garante que está inocente, confi a na absolvição, queixa-se dos media que construíram uma «imagem negativa» dela e que se armam em «juízes implacáveis e hipócritas» (até a sisuda Bompiani já publicou um livro chamado «Amanda e gli altri»). E no entanto ela vive altivamente dessa sua imagem: «As pessoas comportam-se como se eu fosse a mulher mais bonita desde Helena de Tróia». Não é uma Helena de Tróia, mas as fotos do julgamento são fantásticas. Enquanto os seus defensores divulgam fotografias de uma all-american girl liceal e pacata, as imagens de tribunal transmitem confiança e exibem sedução. Amanda disse que o seu à-vontade a tem prejudicado. Na verdade, o seu à-vontade cativa. As fotografias são um prodígio de casual-chique. Escoltada por polícias feias e esgalgadas, Amanda vai atenta nos seus olhos azuis metálicos, veste um pullover azul celeste, uma camisa branca com florzinhas que mostra os braços nus, uma camisola com várias cores horizontais, tem o cabelo solto na sala de audiências, ostenta uma placidez renascentista, contrai os lábios carnudos numa cara divertida, usa um casaquinho grená que lhe acentua os seios, espreita por cima do ombro, sorri para o juiz num friso de polícias encantados. Supostamente, um julgamento é a única circunstância em que ser atraente é prejudicial. Mas digam isso aos fãs, aos juízes e agentes sorridentes, aos duzentos jornalistas e aos fotógrafos, aos cronistas e colunistas. Se ela fosse feia receberia toda esta atenção? Acho que não. Entre acusações e dúvidas, a beleza de Amanda é o único facto provado.

[Público, 7 de Março de 2009]