2/17/2012

É uma boa ideia
















(…) Joseph ouve as vidas dos outros, mas não para interferir nessas vidas; na verdade, ele interveio quanto baste quando foi juiz, absolveu gente que se revelou culpada, condenou um homem que detestava por motivos pessoais, e deixou de saber o que é a verdade, acha que «a verdade» é um conceito que revela «falta de modéstia», ou «vaidade», como diz Valentine. O juiz confessa mesmo uma certa empatia com os criminosos, percebeu que talvez fizesse o mesmo se estivesse no lugar deles, e aposentou-se cedo, porque o seu universo ético entrou em colapso. Agora, ouve os segredos e as mentiras dos outros, e sabe enfim o que é a verdade, mas não faz nada com essa informação. Valentine tenta denunciá-lo aos vizinhos, mas descobre que ia estragar muitas vidas, e recua. Ela não tem nada a temer de Joseph, «a justiça não se ocupa dos inocentes», diz ele, mas ainda assim sente pena e repugnância. Pergunta-lhe o que é que ele quer da vida. «Não quero nada», diz ele. «Basta parar de respirar». E ele: «É uma boa ideia». 

(…) Valentine quer perceber como é que Joseph Kern acabou assim, triste, sozinho, desistente. Ele conta-lhe que há muitos anos amou e foi traído, e que o tal homem que condenou em tribunal foi o amante da namorada. Depois disso, diz, «deixei de acreditar», não encontrou mais ninguém, só Valentine, mas demasiado tarde. E a única vez que eles quase se tocam é através de um vidro. Mas então percebemos que um rapaz que se está sempre a cruzar com Valentine é como que um duplo ou um alter-ego do de Joseph: um jurista traído pela namorada. Numa cena emblemática, esse homem, Auguste, deixa cair um manual de Direito que se abre na página que expõe exactamente a matéria que lhe irão perguntar no exame do dia seguinte; e isso também aconteceu, há muitos anos, a Joseph Kern. (…)


[amanhã, no Expresso]