10/05/2012

O jogo favorito

(...) Lembrava-me bem dos “privilégios da beleza”, dessa “tirania imediata”, da beleza como a verdadeira classe alta. Lembrava-me de que “a poesia é um veredicto, não uma ocupação”. Lembrava-me de que só importa aquilo que amas, o resto é escória. Lembrava-me das raparigas, embora não dos seus nomes, lembrava-me de que Breavman às vezes as confundia, estava com uma e pensava noutra, queria recuperar alguém que tinha desaparecido, reencontrava alguém que tinha mudado. Bertha, a que caiu da árvore; Lisa, que tem o cabelo como Cleópatra; Heather, que ele hipnotiza; Tamara, a progressista de pernas compridas, Patricia, a adolescente que faz de “Hedda Gabler”; Wanda, a rapariguinha da aposta; e, acima de todas, Shell, que “parecia um manequim da ‘Vogue’, alta, de peito miúdo, ossuda e frágil”, mas com ancas e ombros largos, narinas dilatadas, sensuais. Shell, a graciosa, a que não se achava bonita. Breavman passa mais páginas com as outras do que com ela, mas eu atribuía todos os substantivos e adjectivos a Shell, ou a quem aos vinte e tantos anos era a imagem dela.

Breavman e Shell estão fechados num quarto, “felizes, seguros, selvagens”, sabem que “não é bom estar sozinho”, despem-se “como se estivessem a ser perseguidos”, querem um amor livre e aventuroso, um amor de “orgulho e quietude”, um amor que habita a nudez do corpo humano, “não havia nada mais excelente que aquilo” (tudo isto é sobre a mesma pessoa ou estou a fazer confusão?). Breavman ama Shell com intensidade bélica, usa imagens guerreiras, bíblicas, faz-se poeta metafísico, romântico inglês, e o texto inclui os poemas que ele vai escrevendo. Escrever faz parte daquilo, ele contempla-a a dormir, quente e rendida, enumera-a, os cabelos espalhados que parecem uma caligrafia, as contracções dos músculos, os vasos sanguíneos, os brincos de jade nas orelhas. Ela é a mulher por quem ele esperava e que lhe estava destinada, o consolo sem planos, a glória obscura, o povo eleito. Podem dizer tudo um ao outro, partilhar tarefas que se tornam rituais. Estão unidos pela exaltação, por aquilo que representam, “qualquer coisa de imortal”, o amor enquanto “protesto contra a sorte e a circunstância”, o amor que transforma, como uma magia, o amor incognoscível, quase intolerável. É por isso que a poesia de Breavman se torna o seu “substituto”, e ele sente que é aquilo que escreve que ama Shell, mais do que ele mesmo.

Lembrava-me desse idílio doentio (“qualquer canção imperfeita alude a um tema ideal”), mas não me recordava da brutalidade com que Breavman se cansa, se esgota. Breavman está ligado a Shell pela carne e as emoções, mas também está ligado à recordação de a amar, à recordação imediata de a amar tanto. Pensa naquilo que atraiçoaria se ficasse com ela, e no remorso que o acompanharia se a deixasse, sente falta dela mas aceita magoá-la, é cruel, precisa de uma disciplina, de um desafio, “uma paz prolongada deixa os generais inquietos”, e Breavman quer começar de novo, “tenho de viver em qualquer lugar que não seja a expectativa”. (...)

[hoje, no Expresso]